26.8.15

Saudade que invade..

Há dois meses, perdi pela primeira vez um ente querido, quer dizer, a única pessoa que conheci e que cresci e que partiu. Já morreram alguns, dado que a vida é mesmo assim mas acho que a minha cabeça nunca foi assim nessa altura, ainda criança, muita coisa me passava ao lado. 
Nunca conheci os meus avós maternos, infelizmente. As pessoas dizem que sou bastante parecida com a minha avó e se tivesse tido a oportunidade de conhecê-la provavelmente teria a chance de me compreender finalmente, ou pelo menos um bocadinho. Cresci com as idas à praia com os meus avós paternos, na confortabilidade da casa e do jardim que eles próprios criaram e no meio de todos aqueles animais. A minha avó sempre foi a vaidosa, para ela era sempre importante estar bonita, apesar de, por acaso se chamar Deolinda. Talvez tivesses sido tu, avó, a me propor em tempos, que gostasse de flores e de animais, tanto como gosto agora. Tinhas sempre um gelado para mim ou uma bolacha naquelas tuas caixas que deixavas na tua sala ao pé dos teus novelos de lã. Eras uma artista, nunca tive falta de xailes, nem pantufas de dormir ou sequer mesmo cachecóis. Todos os pudins instantâneos que faço hoje, que sim eu agora cozinho, lembram-me daquela terrina cheia com pudim e bolachas Maria. Eras a Mestre do Arroz Doce, e nem a minha mãe te consegue superiorizar. Tinha sempre um espaçinho para pôr as minhas tralhas da praia na barraca do avô. Já que não havia praia para ninguém naquela altura, fazia tudo e mais alguma coisa de escavações na terra. As sardinheiras do teu jardim e gatos siameses, de olhos azuis, eram a tua marca de eleição. Não deixavas que nenhum, ou até mesmo nenhum outro animal passasse fome. Podias até pedir-lhes para eles te deixarem em paz, mas depois eu sabia, até no meu pequeno e pouco desenvolvido juízo que só querias que eles estivessem de volta de ti. 
À 5 anos que toda a gente aborda como o começo das tragédias, mas apesar de todos os novos impedimentos e das tuas incapacidades tu continuavas lá. Tinhas perdas de memória e provavelmente todos te julgavam maluca, mas mesmo que te esquecesses de algo, surpreendias-me sempre com as palavras sábias passados 5 ou 10 minutos. Foste piorando e foste enjaulando o avô. Sabias bem que ele gostava de ter o seu espaço, de andar por tudo o que é sítio, contigo. Davam a volta sempre todos os dias, depois do almoço. Depois deixaste de andar, mas mesmo assim ele não deixou de cuidar de ti e de te amar, tal como ama ainda hoje mesmo com a tua partida para o céu. Podiam-me dizer que não te lembravas de ninguém, nem sequer falavas coisa com coisa mas na memória vai ficar gravada quando agarraste a minha mão e só a querias para ti e eu desajeitada como sou e não percebendo naquela altura o que me querias dizer, permaneci na ignorância, bem, na feliz ignorância de te dar a mão. Mal pensaria eu que o teu fim estaria para chegar. O teu estado foi-se agravando, foste parar ao hospital e quando voltaste a casa já nem te mexias, quiseste morrer ao lado do teu "homem". Custou-me saber, e nem queria acreditar. Mas sei que agora, no sítio em que estás, estás bem mais feliz. A doença estava a roubar-te a vida e já nem tinhas condições para poder vivê-la cá em baixo bem. Tiveste um funeral lindíssimo. Prometi-te algo, porque foi uma maneira de te homenagear com o que mais gostas. Sei que olhas por mim todos os dias e por todos e sabes que, mesmo com as desavenças do costume entre a família, haveremos de resolver tudo, um dia. Olhas pelo avô e dás-lhe forças para fazer também aquilo que ele mais gosta, andar e rezar. Foste amada e continuarás a ser, sempre, por mim. 

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